Os sonhos de G. Zakamoto (2026)
Desde os 8 anos colecciono os meus sonhos em cadernos que guardo ao lado da cama. O primeiro sonho está datado de 6 de Junho de 1982: «No horizonte uma tempestade a chegar, Arlequim passa à minha frente montado num puro-sangue». Não sabia, então, que Arlequim, antes de ser uma máscara, tinha sido um demónio: o Hellequin das lendas medievais, chefe da caçada selvagem, barqueiro de almas.
O método manteve-se o mesmo, apenas se refinou em disciplina. Nos períodos menos produtivos obrigo-me a dormir por poucos minutos, com ruídos de fundo de trânsito ou de aspiradores, e despertadores zelosos que me acordam e me permitem anotar no caderno em curso um sonho acabado de sonhar. É uma técnica tão antiga quanto a modernidade: Salvador Dalí chamava-lhe «o sono com a chave» — adormece-se numa poltrona com uma chave pesada entre os dedos, sobre um prato virado ao contrário; ao primeiro ceder do sono a chave cai, o prato soa, e regressa-se cá com o saque ainda quente. Thomas Edison fazia o mesmo com esferas de aço nos punhos. Kekulé viu o anel do benzeno numa serpente que mordia a própria cauda, a Tartini o Trilo do diabo foi ditado pelo diabo em pessoa, Stevenson delegava os romances nos seus «brownies» nocturnos, McCartney acordou com Yesterday já terminada. A hipnagogia é a zona franca onde o cérebro trabalha de graça: eu só lhe acrescentei a burocracia — cadernos numerados, datas, despertadores. Sou o funcionário zeloso dos meus sonhos, o pombo vogon burocrata do meu inconsciente.
Existe uma pequena biblioteca de quem fez a contabilidade dos próprios sonhos: La Boutique obscure de Georges Perec, 124 sonhos catalogados como achados; o Livro dos sonhos de Fellini, que transformava as noites em pranchas coloridas de circo; o Livro Vermelho de Jung, iluminado como um códice medieval; os diários oníricos de Burroughs. E há Akira Kurosawa, que aos oitenta anos renunciou a qualquer enredo para filmar oito sonhos tal como eram (Sonhos, 1990).
Pintar os próprios sonhos é uma experiência mística: é como pintar o próprio cérebro nos seus momentos de ócio. Os neurocientistas chamam-lhe rede de modo padrão, a rede que se acende quando não fazemos nada; os sonhos são a arte produzida por essa rede, a única produção artística verdadeiramente involuntária, sem mercado, sem encomendadores, sem críticos, sem inteligência artificial, para já. Todas as noites o cérebro monta uma exposição individual de entrada livre e ao acordar desmonta-a. A série Dreams é a tentativa de salvar alguns quadros antes do desmantelamento.
Os sonhos desta série acontecem quase todos no mesmo lugar: uma praça soalheira e deserta, arcadas, sombras longas, horizontes demasiado próximos, céus de uma cor errada. É o cenário que Giorgio de Chirico patenteou entre 1910 e 1918 e que ninguém alguma vez pôde dispensar, porque não é um estilo: é a própria arquitectura do sonho. Não por acaso a Metafísica nasceu na minha cidade: Turim, ou melhor, da ideia de Turim, as praças com arcadas, as estátuas equestres, as sombras geométricas de Outubro. Trabalhar numa série sobre os sonhos num ateliê turinês significa pintar in loco: a matéria-prima está do lado de fora da porta.
A gramática é aquela que Freud atribuiu ao trabalho onírico: condensação e deslocamento. No sonho as figuras fundem-se (um homem é também um pombo), os objectos migram de contexto (um despertador no meio de uma praça, uma luva pendurada numa parede), as proporções mentem, o tempo pára num relógio que marca sempre a mesma hora. A pintura metafísica nunca fez outra coisa: é montagem onírica a óleo. E como nos sonhos, os inquilinos destas praças não respeitam as hierarquias culturais. O cérebro que sonha não distingue entre alto e baixo, entre o anjo e o Doraemon, entre o Graal e a esfera do dragão: arquiva tudo no mesmo armazém e à noite pesca ao acaso. Para uma criança crescida nos anos oitenta, o inconsciente colectivo é transmitido na televisão à tarde: os seus arquétipos chamam-se Shenron, Doraemon, Hello Kitty. Junguianos de fim de tarde.
Dreams é também o lugar onde as outras séries vêm dormir: os homens-pombo de Stop the Pigeon, as esferas acéfalas de Quarantine, a gatinha de Kitty die Katze, a rosa sob redoma que já está em Deflorationis, a infância enorme do Regresso dos gigantes.
Se cada série é um heterónimo, o sonho é a sala onde os heterónimos se encontram sem se apresentarem. G. Zakamoto lavra a acta destes encontros logo de manhã.
Sugestões de leitura
Giorgio de Chirico — O enigma da hora (1911), Canto de amor (1914), as Praças de Itália, Heitor e Andrómaca (1917), Banhos misteriosos (1973). A praça, a luva, o relógio, o manequim, a estátua: todo o léxico cenográfico da série.
René Magritte — La condition humaine (1933), L'empire des lumières (1949–54). O quadro dentro do quadro e a coabitação do dia e da noite.
Salvador Dalí — A persistência da memória (1931), Sonho causado pelo voo de uma abelha (1944), Os elefantes (1948), Rosa meditativa (1958); o «sono com a chave» em 50 segredos mágicos para pintar (1948); a sequência onírica de A Casa Encantada de Hitchcock (1945) e a curta-metragem Destino com a Disney (1945–2003).
Max Ernst — O elefante Celebes (1921).
Paul Delvaux — as mulheres sonâmbulas, as estações nocturnas, o luar sobre as arquitecturas clássicas.
Henri Rousseau — O sonho (1910).
Johann Heinrich Füssli — O pesadelo (1781); Francisco Goya — O sono da razão produz monstros (1797–99). O ramo nocturno e inquietante da genealogia.
Joan Miró — Cão a ladrar à lua (1926): a escada de mão rumo ao céu.
Artemidoro de Daldis — Onirocrítica (séc. II d.C.): a primeira burocracia do sonho.
Sigmund Freud — A interpretação dos sonhos (1899): condensação, deslocamento, realização de desejo, das Unheimliche (1919).
Carl Gustav Jung — O Livro Vermelho: arquétipos e inconsciente colectivo (em versão televisiva da tarde).
Hervey de Saint-Denys — Os sonhos e os modos de os dirigir (1867): o pioneiro do sonho lúcido.
Hipnagogia e incubação criativa: Edison e as esferas de aço, Kekulé e o anel do benzeno (1865), Tartini e o Trilo do diabo, Stevenson e os «brownies» (A Chapter on Dreams), McCartney e Yesterday (1965).
Georges Perec — La Boutique obscure. 124 sonhos (1973).
Federico Fellini — O livro dos sonhos (publ. 2007).
William S. Burroughs — My Education: A Book of Dreams (1995).
Akira Kurosawa — Sonhos (1990): oito sonhos filmados sem enredo, o precedente directo da série.
Satoshi Kon — Paprika (2006); Christopher Nolan — A Origem (2010): o sonho como tecnologia partilhada.
Hayao Miyazaki — O castelo no céu (1986), Porco Rosso (1992): a ilha voadora e os hidroaviões vermelhos, o homem-animal que voa nos interstícios.
Winsor McCay — Little Nemo in Slumberland (1905): o sonho em banda desenhada, com queda da cama obrigatória na última vinheta.